O Eduardo Quando me pediram para relatar 
um pouco da nossa experiência na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais de Faro, confesso que disse logo que sim. Mas depois… pensar em tudo o que passamos foi doloroso. Ainda é. Recordo-me da enfermeira que comentou que certas vivências na Unidade deixavam traumas equivalentes a traumas de guerra. 
Na altura não senti que fosse assim, levava um momento de cada vez, mas essas palavras ecoam na minha cabeça com mais frequência do que gosto de admitir. A experiência de ter um bebé prematuro faz com que tenhamos de fazer o luto do que não foi, ao mesmo tempo que temos de seguir em frente independentemente de qualquer dor ou de qualquer 
medo. Essas coisas ficam todas 
para viver mais tarde. As coisas não correram mal com o nosso bebé, ele deu passos pequeninos, mas seguros e o percurso, dentro do mal, foi bom. O Eduardo nasceu a 262 km de casa, 30 semanas e 1400g. 
Após 16 horas de trabalho de parto, sem se conseguir finalizar a maturação pulmonar, o bebé nasceu de cesariana. Não o vi quando nasceu. Não o ouvi quando nasceu. Quase não senti que ele tinha saído de mim. A história da cesariana não ficou por aqui, houve complicações… Posso dizer que só vi o Eduardo 
dias depois de ter tido um cesariana complicada. Vê-lo…ver um bocadinho da pele dele entre o ninho, o gorro e a máscara que o ajudava a respirar. Posso dizer que depois dessa breve visita, olhá-lo uns escassos minutos, sem lhe tocar, voltei a passar dias, que pareceram uma eternidade sem o ver. Depois, quando o voltei a ver, fui veementemente alertada para a importância de alguns procedimentos fundamentais para a segurança e saúde do meu bebé. Fiquei assustada, cheia de medo. Mas acho que, como todas as mães, arranjei coragem e força dentro de mim para seguir em frente e fazer exatamente o que me diziam para bem de todos. E aprendi a pouco e pouco como cuidar do meu bebé prematuro. Com medo, mas com a segurança de que a equipa estava lá para me ajudar, e que as mãos cuidadoras do meu marido me guiariam por caminhos que elas 
já conheciam há mais tempo que 
as minhas. O mais importante para nós foi poder prestar cuidados. Saber que podíamos fazer parte do dia-a-dia do nosso bebé e que estávamos a fazer alguma coisa por ele. Isso foi o mais importante, logo a seguir a isso foi compreender o porquê de certas coisas. Saber que o porquê do ambiente controlado e do silêncio mantido na Unidade; a importância de proteger os olhos do bebé da luz; compreender o motivo pelo qual temos de fazer a higiene do bebé lentamente; entender a importância do canguru e como devemos faze-lo ajudou à segurança do que fazíamos. A equipa foi fundamental nas explicações 
e no apoio em momentos 
mais complicados. A força não sabemos de onde vem, mas penso que muita dela vem das horas intimas de sentir na nossa pele a pele e o calor do nosso bebé. O canguru foi a nossa âncora e o nosso leme. Dentro da angustia, do medo e da incerteza do dia seguinte, aquele contacto da nossa pele com a pele dele era o nosso momento de alegria, de tranquilidade e de esperança. E nesses momentos lá íamos-lhe lembrando: “respira bebé, não te esqueças de respirar!” As emoções foram um oceano, tão grande como o que não chegamos a ver nas semanas que passamos em Faro. As saudades de casa, a distância de toda a nossa rede de apoio, de tudo o que nos era conhecido tornou a UCIN a nossa primeira casa e a equipa a nossa segunda família. Foi o suporte da equipa que nos permitiu ter momentos divertidos e de felicidade no meio das incubadoras, dos monitores e todos os alarmes. Sentimos que tudo foi feito pelo Eduardo, nada ficou por fazer! Felizmente a nossa jornada seguiu tranquila e bastou cerca de mês e meio para podermos regressar a casa, cheios de vontade e ansiedade por cuidarmos sozinhos pela primeira vez do nosso bebé. A quem está a viver agora a angústia do dia de amanhã, apenas podemos desejar muita coragem e muita esperança! Mesmo quando acharem que já não são capazes, acreditem, existe uma força escondida que nos faz levantar dia após dia. O que ajuda? Ajuda a aceitação. Aceitar que não podemos controlar tudo; que temos também de nos cuidar a nós mesmos, nem que seja por uns instantes cada dia; aceitar que por mais que queiramos, não podemos proteger os nossos filhotes desses inimigos invisíveis. Aceitar não faz doer menos, mas empurra para a frente! 
Mas acima de tudo é importante lembramo-nos que somos só humanos, que precisamos de ajuda e que aceita-la é essencial para continuar! Elsa, Pedro e Eduardo

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